Ano novo, mesma ilusão: o “Dry january” vai mesmo salvar um ano de abusos?
Feliz Ano Novo, pessoal!
Como seres humanos, nós adoramos a possibilidade de um novo começo. Por isso, nesta época, as pessoas estão cheias de motivação e vontade de fazer tudo o que decidiram adiar lá no fim de novembro, quando o ano começou a terminar. É essa sensação mágica de que faremos tudo diferente e alcançaremos nossos objetivos mais ambiciosos apenas porque o calendário virou. Doideira, né!?
O “Dry January” (ou Janeiro Seco) é o desafio de não consumir bebidas alcoólicas durante o mês de janeiro. É um ótimo exemplo de compromisso que adoramos fazer nesses novos começos, mas que pode gerar muita frustração.
Vale destacar que, no Hemisfério Norte, estamos falando de um janeiro de inverno e muito trabalho — não de um janeiro de calor e férias como no Hemisfério Sul. Seria o equivalente a um brasileiro decidir não beber durante todo o mês de agosto. Mas, como as pessoas adoram uma “trend”, o Janeiro Seco tem adeptos em ambos os lados do equador. A frustração para alguns começa ao não conseguir completar o desafio; para outros, surge ao perceber que não há grande benefício a longo prazo se os mesmos hábitos abusivos forem mantidos no restante do ano.
Adoro ver nas manchetes dos jornais frases como: “Especialistas concordam que qualquer redução no consumo de álcool pode levar a uma melhoria na saúde”. Sem fontes, sem estudos — apenas conversa barata ou frases soltas citando um médico qualquer. Com uma formação científica, é fácil identificar isso como uma armadilha.
Desculpem aí, os meses estão em inglês, mas acho que a mensagem ficou clara na mesma.
O processo evolutivo incorpora todos os nossos hábitos, e o álcool faz parte das nossas sociedades há cerca de 10 mil anos. Portanto, se fizermos uma intervenção e, do nada, interrompermos o consumo, é claro que haverá respostas fisiológicas. Poderíamos debater o quanto essas respostas são benéficas, mas o ponto mais importante é: o que aconteceria se mantivéssemos a interrupção permanentemente? Muito provavelmente, o organismo se adaptaria; é a natureza da evolução. Até mesmo os supostos benefícios poderiam desaparecer assim que o nosso corpo encontrasse um novo equilíbrio.
O mesmo acontece se cortarmos o glúten, a lactose ou qualquer outra coisa (não estou falando de casos de intolerância). Novamente: observaremos alterações a curto prazo, mas seriam elas sustentáveis? Ou foi apenas uma resposta temporária à intervenção? Precisamos de mudanças permanentes e hábitos saudáveis sustentáveis, não de "purificações" falsas. O Janeiro Seco parece a versão moderna de tentar comprar o seu lugar no céu.
E quem paga a conta? O dono do bar local e as pequenas marcas de cerveja artesanal, que sofrem com a queda súbita no consumo. As grandes marcas nem ligam; já diversificaram seus portfólios e estão prontas para vender mocktails coloridos com promessas furadas de saúde.
Mas o seu vizinho é quem sente a dor. Então, deixe a conversa barata de lado e vá beber UMA cerveja! Escolha uma com menor teor alcoólico, ou até uma sem álcool, e beba apenas essa. Aproveite, mande este texto para aquele amigo que estava com essa ideia na cabeça e bora para o bar! Gostou da ideia? Boa, agora repita! haha
Bebam com moderação, sempre. Saúde! 🍻